A morte de um filho e os anos que passam, e não passam.
Mesmo depois de quase metade da vida sem ele, a ausência continua existindo.
Perder um filho é perder parte do mundo sagrado. Perder códigos únicos. É perder a si mesmo. É perder o mundo feito de futuro.
Hoje, uma mãe que perdeu o filho há exatos 47 anos festejou o dia do seu aniversário. Vimos fotos, ela tocou no piano a música favorita dele, trouxe roupas coloridas, fios do seu cabelo guardados em um pequeno vidro, lembranças do primeiro corte de cabelo de quase 50 anos atrás.
“Os anos passam e a dor encontra um lugar”, ela me disse.
O sorriso volta a ocupar um espaço no mundo. A vida seguiu, mas também não.
O dia de hoje permanece parado no dia do parto, na dor que o fez naturalmente nascer, mas que hoje é acionada pela falta do abraço que tinha aroma de talco fresco e lavanda. A dor desperta a cada hora do dia que lembra a sua chegada, mas também é recontada pelo dia da despedida.
A morte de um filho e os anos que passam, e não passam.
Hoje ela voltou à juventude e tocou a própria barriga. Fechou os olhos e tornou a sentir como ele se mexia lá dentro. Mas agora aprendeu a sentir o coração que bate forte e acelera a cada tom de saudade.
“É como se eu ainda o sentisse dentro de mim, mas através das batidas do meu coração.”
Há dias em que o luto volta e revolta tudo por dentro. Dias de agradecer pelo amor e lamentar pela dor. Os dois aprenderam a andar de mãos dadas. São feitos da mesma linha. Fazem uma dança silenciosa de cadeiras.
Dentro de cada um de nós moram temporais, mas também rios que correm, barulho de chuva e a batida suave do coração.
Perder esse lugar sagrado arranca partes da gente. Mas a vida é tão absolutamente impressionante que nos ajuda a reconstruir, a partir do profano, algo que se transforma em oração.
“Filho, eu te amo todos os dias.”
Essa se tornou a sua oração, o seu Pai-Nosso. Fez da morte o seu sagrado, porque passou a conservar o amor em lugar absoluto: dentro de si.
E assim ele pode renascer na vida e para a vida, ainda que tenham se passado 47 anos.



