Amor e dor caminham juntos no luto. É um percurso que exige tempo, muito tempo. Um caminho que cansa, desgasta e, por vezes, parece não ter fim. Ainda assim, seguimos. Em nome do amor, não conseguimos renunciar.
Renunciar não significa esquecer. Significa, aos poucos, deixar ir aquilo que já não pode permanecer da mesma forma. É confiar que o amor não depende da presença física para existir. Ele nos acompanha até o último dia da vida e encontra morada permanente dentro de nós.
Diariamente, escuto dos meus pacientes sobre o medo de esquecer. O medo de que a memória desapareça, de que o vínculo se enfraqueça. Escuto também a dificuldade em aceitar a permanência da perda. O desejo pelo reencontro, tão característico do luto, modifica temporariamente nosso senso crítico, favorece o pensamento mágico e intensifica o sofrimento. Ainda assim, essa é uma resposta profundamente humana. Desejamos reencontrar quem amamos, mesmo sabendo que isso já não é possível. Vivemos, então, entre paradoxos: entre a dor e o amor, entre deixar ir e preservar, entre compreender a realidade e continuar buscando explicações para o inexplicável.
Sustentar essas complexidades exige muito do psiquismo. Exige da rede de apoio, do corpo e da saúde física. O tempo parece desacelerar, e um único dia pode parecer interminável. Embora tudo isso pareça óbvio, é importante nomear essas experiências. O luto é uma resposta emocional à ausência, mas também uma intensa resposta de estresse. Ele reorganiza prioridades, altera nossa percepção do mundo e, muitas vezes, desfaz as referências que tínhamos sobre quem éramos. Continuamos sendo nós, mas já não exatamente da mesma maneira.
Cuide da sua dor. Ela é como um machucado: haverá dias em que vai sangrar, outros em que começará a cicatrizar e outros em que voltará a arder. Cada uma dessas respostas faz parte do processo.
Não curamos o luto, nem apagamos a saudade. Aprendemos a acolher a ausência e a construir uma nova forma de permanecer em relação com quem amamos. Aprendemos, sobretudo, sobre a extraordinária capacidade humana de se transformar sem deixar de amar.
Talvez nenhuma outra experiência ensine tanto sobre o amor quanto o luto. Porque viver o luto é, acima de tudo, um ato de coragem: a coragem de continuar vivendo quando uma parte da vida parece ter partido junto com quem se foi.






