O luto é um esvaziamento

Uma parte sua morreu. É verdade, morreu pra sempre.

Existem dores que não são recuperáveis. Não existe curativo.

Não dói o tempo todo, mas quando a dor chega. Nossa. Ela arrebenta.

Arde. Queima. Quase enlouquece.

A vida deixa marcas que são mais do que as cicatrizes feitas de brasas. São como pele arrancada. Nada melhora a tal dor.

A dor tem a ver com tempos passados. Aonde tudo parecia estar no lugar perfeito.

O passado.

Ele nunca fica lá trás. Ele faz lembrar que o presente é meio rearranjado. Você cabia naquilo que, um dia, foi o seu lugar preferido no mundo. E você sabia, nunca duvidou. Mas acabou. Não existem palavras bonitas.

E você lembra. E não esquece. E por um tempo fica guardado. Mas de repente, pula, grita, te sacode e lembra : a vida boa era ali.

Você aceita porque não tem o que fazer. Mas ainda que, agora, seja dolorido, se pudesse viver de novo, viveria cada milímetro de segundo. A felicidade que existia ali nunca existirá em outro lugar.

Luto também é sobre isso. Luto é sobre tantas coisas. E a maioria delas não está mais. Elas se foram. É duro realizar o tamanho da perda, talvez você só consiga quando não se encontra mais em si mesmo. O luto é um esvaziamento.

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Sobre a autora:
Erika Pallottino

Psicóloga especialista em Luto, Cuidados Paliativos e Psico-Oncologia